Creditos: Fernando Duarte - Role,BBC World Service
Na próxima vez que você olhar
para uma Lua cheia, lembre-se de Theia.
Esse é o nome que os cientistas deram a um planeta
hipotético que pode ter colidido com a Terra jovem há 4,5 bilhões de anos,
liberando um fragmento que se tornaria a nossa Lua.
De acordo com essa teoria, sem o "sacrifício
cósmico" de Theia, não teríamos nosso satélite natural permanente — e você
talvez nem estivesse lendo este artigo.
Uma
colisão de proporções cósmicas
Atualmente, os cientistas acreditam que uma enorme colisão
entre a Terra e um objeto do tamanho de Marte liberou material suficiente para
que este se aglomerasse e formasse a Lua.
Chamada de hipótese do impacto gigante, o evento também deu
início a uma relação cuja importância para a vida como a conhecemos não pode
ser subestimada. Entre outras coisas, a Lua exerce uma força gravitacional
semelhante a um cabo de guerra com o nosso planeta, que, ao longo de bilhões de
anos, estabilizou a Terra enquanto ela girava em seu eixo, o que contribuiu
para a estabilidade do nosso clima.
"Sem a estabilidade climática, teríamos condições
climáticas e meteorológicas muito mais extremas, o que não seria bom para o
desenvolvimento da vida", explica Thorsten Kleine, planetólogo do
Instituto Max Planck de Pesquisa do Sistema Solar, na Alemanha.
Kleine fez parte de uma equipe internacional de
pesquisadores que, em novembro passado, tentou esclarecer esse encontro
marcante e misterioso da Terra.
Em um artigo publicado na revista Science, a equipe analisou
a composição química de amostras da Terra e da Lua e reforçou as teorias de que
Theia e nosso planeta eram o que poderíamos chamar de "vizinhos" em
um momento caótico da formação do Sistema Solar.
Credito: Imagem Nasa:
As missões Apollo nas décadas de 1960 e 1970 foram
cruciais para a nossa compreensão da Lua, incluindo como ela pode ter se
formado
Uma Lua,
muitas teorias
Mas nem sempre Theia foi tratada como hipótese principal
como origem da Lua.
Antes de os humanos pisarem pela primeira vez na superfície
lunar em 1969, havia três outras hipóteses principais.
De acordo com a teoria da fissão, a Lua se formou quando a
Terra, girando rapidamente, soltou um pedaço seu no espaço.
A teoria da captura propunha que a Lua se formou em outro
lugar do Sistema Solar e foi "laçada" pela gravidade da Terra ao
passar por perto.
E existe também a teoria da coformação — de que a Terra e a
Lua se originaram e se estabilizaram lado a lado.
Em vez de esclarecer qual dessas teorias seria a mais
provável, as missões Apollo da Nasa apontaram para uma ideia completamente
nova.
Semelhanças
químicas
Embora o heroísmo de Neil Armstrong e de outros astronautas
que pousaram na Lua seja mais associado à chegada dos humanos à Lua, as missões
Apollo foram importantes também pelo conteúdo que eles trouxeram de lá.
"Os astronautas da Apollo trouxeram amostras de rochas
lunares e, quando os cientistas as analisaram, descobriram que as rochas da Lua
apresentavam notáveis semelhanças químicas com a Terra", diz Raman
Prinja, astrônomo do Universe College London e
autor do livro infantil de ciências Maravilhas da Lua.
Isso sugere que a Lua pode ter se originado da Terra.
NASA/Getty Images
Prinja afirma que as rochas apresentavam sinais de terem
sido formadas sob calor extremo, sugerindo que elas se originaram de um impacto
massivo.
Elas pareciam ter perdido grande parte dos elementos que
vaporizam facilmente quando aquecidos, o que indica que a Lua estava em estado
líquido quando se formou.
Sarah Valencia, geóloga lunar da Nasa, acrescenta que as
pistas fornecidas pelas amostras são apenas a ponta do iceberg. Os avanços
tecnológicos das últimas décadas, especialmente na modelagem computacional,
fortaleceram a hipótese do grande impacto. Existem até teorias de que a
inclinação do eixo da Terra seria uma consequência da colisão com Theia.
"A teoria do impacto gigante continua sendo o melhor
modelo para explicar a química e a relação entre a Terra e a Lua", diz
Valencia.
A Terra
'comeu' Theia?
Mas o que aconteceu com Theia?
Este é um dos grandes mistérios. Ao contrário do famoso
asteroide que atingiu a Terra há 65 milhões de anos — dizimando os dinossauros
e deixando uma enorme cratera na Península de Yucatán, no México — Theia não
parece ter deixado vestígios óbvios.
Por quê? Kleine afirma que Theia tinha cerca de 10% da massa
da Terra, e essa diferença significa que ele teria sido fragmentado com o
impacto e em grande parte absorvida pela Terra. Um pedaço do planeta pode
também ter se tornado parte da mistura que formou a Lua.
"Este seria o resultado natural de uma colisão desse
tipo. Mas esperaríamos encontrar uma assinatura composicional de Theia na Lua,
o que ainda não encontramos", diz o cientista.
NASA/JPL-Caltech/Esa
"Uma explicação é que a Terra e Theia eram muito
semelhantes porque se formaram na mesma região do Sistema Solar",
acrescenta ele, e, portanto, difíceis de distinguir.
Da mesma forma, sabemos que nosso planeta tem muitas
características em comum com dois de seus vizinhos mais próximos, Vênus e
Marte. Vênus é até mesmo chamada, às vezes, de "gêmea maligna da
Terra".
"Mas, assim como a origem de Theia não é conhecida
conclusivamente, seu destino também não é", alerta Valencia.
Existem algumas pistas, no entanto. Um estudo de 2023
afirmou que duas áreas do tamanho de continentes, nas profundezas da Terra,
eram remanescentes de Theia.
Volta à
Lua
Ainda há muito a aprender sobre como o nosso planeta e a Lua
se tornaram um "casal", e essa é uma das razões pelas quais os
cientistas estão tão entusiasmados com as atuais missões Artemis da Nasa e com
o retorno humano à Lua.
Credito: Imagem Nasa
Além de experimentos mais avançados do que os possíveis na
era Apollo, as missões mais recentes explorarão novas regiões da Lua, como o
Polo Sul. As amostras lunares trazidas de volta à Terra pela Apollo vieram de
uma área relativamente pequena da Lua — a região equatorial do lado visível.
"Se fôssemos apenas a seis lugares na Terra, poderíamos
dizer que exploramos toda a Terra e entendemos sua evolução? Claro que não! A
Lua tem um potencial científico infinito", diz Valencia.
Mas, por enquanto, com o que já aprendemos, podemos dizer
que devemos um enorme agradecimento a Theia por seu sacrifício.
