Hoje, na história da astronomia, confirma-se a presença de gelo de água na calota polar de Marte.
Em 18 de janeiro de 2004, a sonda Mars Express, da Agência Espacial Europeia (ESA), realizou com sucesso o mapeamento detalhado do polo sul de Marte. Numa descoberta pioneira, a missão revelou a presença simultânea de gelo de água e gelo de dióxido de carbono (gelo seco) na região, fornecendo a primeira evidência direta e inequívoca dessa composição mista.
Lançada em 2 de junho de 2003, a Mars Express inseriu-se na órbita marciana no dia 25 de dezembro do mesmo ano, iniciando uma missão ambiciosa de estudar a atmosfera, a superfície e o subsolo do planeta. A sonda carrega um conjunto avançado de instrumentos, incluindo:
MARSIS (Mars Advanced Radar for Subsurface and Ionosphere Sounding): Um radar de baixa frequência que "enxerga" abaixo da superfície, procurando por água líquida ou gelada.
OMEGA (Visible and Infrared Mineralogical Mapping Spectrometer): Um espectrômetro que mapeia a composição mineralógica da superfície, identificando compostos como argilas, sulfatos e tipos de gelo.
HRSC (High Resolution Stereo Camera): Uma câmera estereoscópica que fornece imagens tridimensionais de alta resolução da topografia marciana.
Foi justamente com esses instrumentos, em especial o OMEGA, que a Mars Express pôde discriminar quimicamente os diferentes tipos de gelo no polo sul. O dióxido de carbono congela nas temperaturas extremamente baixas do inverno marciano, formando uma camada sazonal sobre uma camada permanente muito mais espessa de gelo de água. Essa descoberta foi crucial para entender o ciclo do carbono e da água em Marte, bem como a dinâmica climática e as reservas de água do planeta.
Legado e Longevidade:
Mais de vinte anos após essa descoberta histórica, a Mars Express continua ativa e produtiva, superando em muito sua missão planejada originalmente. Sua longevidade operacional contínua em órbita de Marte é um feito extraordinário, ficando atrás apenas da sonda Mars Odyssey da NASA (lançada em 2001) como a missão orbital marciana mais longeva ainda em funcionamento. A sonda europeia segue sendo uma ferramenta científica vital, contribuindo para um retrato cada vez mais completo do Planeta Vermelho e pavimentando o caminho para futuras missões de exploração.

